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A metodologia MA.DE.IN e a originalidade dos ambientes

  • IEDentity
  • "Cenários do futuro"
  • Número 01 - 28 de fevereiro de 2018
Marcello Maria Perongini
  • Marcello Maria Perongini

O diferencial da metodologia MA.DE.IN é oferecer infinitas possibilidades para a construção de uma narrativa espacial.

Este artigo apresenta um breve resumo do processo metodológico aplicado no curso Master Profissional em Design de Espaços (MA.DE.IN) do IED Rio, criado por Josep Ferrando e coordenado por Ayara Mendo. Esta inovadora metodologia usa processos inventivos a partir da própria originalidade dos ambientes e dos materiais, de modo a criar sistemas espaciais multiescalares e flexíveis.

Espaços transmutados pelo clima, rachaduras aparentes e um cenário de abandono. Tudo isso se adequa à metodologia onde o tempo pode conter possibilidades infinitas. Josep Ferrando, arquiteto catalão da ETSAB - Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Barcelona, desenvolveu uma nova perspectiva para as escalas em espaços aparentemente deteriorados. O que poderia ser rejeitado pode ser ressignificado em forma de projeto arquitetônico, paisagístico, uma instalação ou design de interiores e de produtos. Os efeitos do tempo se tornam o turning point para a pesquisa da potencialidade dos detalhes em ambientes.

Pensar em instalações de maneira multiescalar, de um grão de arroz a blocos de concreto, faz com que todos os materiais escolhidos sejam tensionados ao limite do micro ou macro, para solucionar a problemática do local. Em um de seus trabalhos, Josep Ferrando se inspirou em takes retirados do filme Powers of ten (1977), com dimensões estendidas ao máximo e ao ínfimo, reproduzidas em uma tela de celular.

Processos sinestésicos como este, que moldam os espaços arquitetônicos preservando a sua essência, proporcionam um contato intenso com a materialidade, a geometria, os sistemas flexíveis e a intuição como parte da inspiração. Cinco palavras-chaves permeiam a metodologia MA.DE.IN: sistema, monomaterial, eficiência, multiescalaridade e por fim a geometria.

A metodologia MA.DE.IN, base do curso de Design de Espaços - coordenado no IED Rio pela professora Ayara Mendo, arquiteta urbanista espanhola e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e por Josep Ferrando - tem no seu diferencial uma nova visão de design de espaços.

Ayara Mendo, coordenadora do curso de Design do Espaço | Metodologia MA.DE.IN

3 Metodologia de polos contrastantes

O confronto entre teoria e prática permeia toda a proposta didática do Design de Espaços, que traz a divergência entre dois polos: matéria e escalas. Juntos, conseguem formar uma estrutura sólida e instigante, e uma experiência libertária em relação aos materiais, ao espaço deteriorado ou não, à luz e às escalas. Josep Ferrando possui uma relação antiga com a convergência de dois elementos: materialidade e sistemas multiescalares. Nos últimos anos, ele vem desenvolvendo algo único dentro dos projetos de arquitetura, que são criados a partir de um desenho de natureza multiescalar, quando parte e todo são concebidos simultaneamente. Sua exposição no MAM Rio, “Matéria e Luz” (2015), abordava um tema recorrente dentro do MA.DE.IN - materialidade e luz não se sustentam separadamente.

Na esfera didática, Ayara Mendo lança a pergunta que norteia a primeira parte das aulas de Design de Espaços: “qual é o sistema que está na essência do projeto?”. Na primeira parte do curso, a indagação atravessa o brainstorm, e, para a professora, construir um sistema espacial significa que a soma das partes compõe o espaço. O atrativo deste mesmo sistema revela a possibilidade de projetar em formas flexíveis e repetitivas. Para Mendo, a mesma peça pode ser repetida, uma medida pode ser replicada e um mesmo mecanismo também pode sofrer repetições, todos em diferentes escalas.

Projeto Habitar o Espaço (2017), da aluna Paola di Paolo, sistema com tijolo maciço e barra roscada

Esta relação não cartesiana possibilita uma liberdade na geometria espacial. Mesmo na hora de pensar uma ocupação topográfica, na qual a geometria deve estar presente, a flexibilidade de escalas abre um novo paradigma para a construção de um ambiente.

Outro ponto relevante abordado é a materialidade das formas a serem trabalhadas. O material é o personagem que habita o espaço e que ao mesmo tempo o define. O objetivo é descobrir qual é a capacidade do material em construir o espaço. Na sistematização MA.DE.IN procura-se desvendar qual é a atitude ou personalidade do material.

Para além da materialidade das formas e o efeito da luz incidente, temos a questão da matéria-prima com suas características decorrentes de sua origem. Para construir um sistema eficiente é necessário entender a sua forma, e, a partir das condições próprias da sua composição material, serão exploradas suas possibilidades.

Dentro da metodologia MA.DE.IN isto significa entender os processos sociais e industriais do material que determinam as medidas, formas, ou características mecânicas próprias de cada matéria-prima. “Estudar e testar de forma empírica as qualidades e características da matéria-prima (mecânica, densidade, peso, rigidez, resistência à tração, características acústicas, porosidade etc)” afirma, Mendo.

 


Expografia da mostra do curso MA.DE.IN turma 6 no Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro, 2017, realizada em um único material: bobinas de sacolas de plástico

5 Sistemas multiescalares e geométricos

Os sistemas podem ser repetidos e ressignificados nos ambientes deteriorados pela ação do tempo. As rachaduras que seriam rechaçadas se tornam aliadas nos projetos arquitetônicos lançados. A medida, a distância e a geometria podem igualmente sofrer uma repetição incessante em forma de escala: “o projeto deve mostrar as relações escalares, espaciais e temporais entre os fatos. Como escalar o vazio?”, indaga Ayara Mendo.

A ideia é construir um espaço entrelaçado a outros espaços e, desta forma, articular as escalas entre eles. Os sistemas estruturais e construtivos do projeto atendem a uma lógica geométrica dos sistemas em espiral, sistema radial, sistema tangencial, entre as inúmeras declinações.

Desta maneira, se pretende incorporar ao projeto as geometrias herdadas no território e patrimônio preexistentes, de forma que o projeto vai pertencer ao lugar, mas também o lugar vai pertencer ao projeto.

Autor: Marcello Maria Perongini