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Processos artesanais, manufaturados e digitais no design de excelência

  • IEDentity
  • "Innovation & Craft"
  • Número 03 - 10 de maio de 2018
Sebastián García-Garrido
  • Sebastián García-Garrido

Graças à aparição de novas tecnologias, o artesanato viu seus horizontes ampliados, oferecendo novas oportunidades de produção. Esse fato não deve ser analisado apenas a partir de um ponto de vista formal ou econômico, visto que pressupõe uma verdadeira revolução cultural.

Sempre existiu uma crescente e importante indústria do design mais elaborado e elitista, cujas formas, materiais e número reduzido de peças demandam processos de fabricação próprios do campo do artesanato. Procedimentos que, por outro lado, nunca deixaram de ser empregados na indústria de máxima qualidade, no mobiliário, vestuário, acessórios de moda e até mesmo nos automóveis. A preeminência da peça única ou o original múltiplo das séries de impressão em alto relevo tiveram sempre o valor indiscutível de arte, valor conservado também em uma peça de artesanato e, no design, em peças únicas ou em séries limitadas.

Por outro lado, como bem explica Tachy Mora, o fator cultural do produto de artesanato - feito por pessoas com domínio do processo de fabricação e capacidade para criar algo que lhes satisfaça - é do nosso interesse. Esse outro aspecto revela um objeto feito com amor, como prolongamento da vida de uma pessoa, que tem um valor singular no contexto da impessoalidade, do excesso de produção e do consumo industrial indiscriminado, cujos produtos serão abandonados antes mesmo de concluir sua utilidade. Esse é um modo de sentir a humanidade e é o que se aprecia no acabamento manual, com as imperfeições ou irregularidades próprias da manufatura de seu produtor.

 

Pasquale Salzillo, a partir das conclusões de Negroponte em Essere digitale, afirma que em um processo de fabricação destinado à realização de objetos concretos as tecnologias digitais não são suficientes e o processo “dos átomos aos bites” necessariamente tenderia a um retorno aos átomos: “como seres humanos, não podemos ter a experiência dos bites. (...) A natureza do homem, portanto, se concretiza através da sua relação com o físico, sua experiência com o ambiente em que se desenvolve e a propensão a conhecer e compreender através de uma relação recíproca com tudo aquilo que pode ‘tocar com a mão’, ‘não existe escapatória ao vínculo com o físico’. (...) No atual contexto produtivo, o emprego de tecnologias digitais cria produtos essencialmente intangíveis, mas, tomando como referência uma economia de escala,  chega a ser essencial um retorno aos produtos materiais, concretos. Nesse sentido, é papel do artesanato promover uma cultura do produto bem feito e de qualidade com instrumentos flexíveis e inovadores, como as tecnologias digitais. Ser digital é a chave para crescer”.

Nesse sentido, a tecnologia digital é o futuro nas mãos do artesão, até mesmo aquela que é diretamente utilizada pelo designer, capaz de dar conta do processo de fabricação graças ao desenvolvimento técnico. Esse avanço digital também permite que o cliente possa produzir diretamente o produto que recebe em sua casa, projetado pelo designer. Além disso, a própria Internet - no que se denominou sistema web 3.0 - permite ir mais além, superando a mera interação entre consumidores e empresas de produtos ou serviços e permitindo a participação dos usuários na criação. Assim nasce o design colaborativo, por meio da cocriação e da participação criativa dos clientes, especialistas no uso e na valorização do produto/serviço. Uma participação direta no desenvolvimento de conceitos e ideias que o próprio designer pode promover e que posteriormente irá implementar a fim de obter um codesign muito mais eficaz e inovador. Essa nova geração da atividade profissional do design é especialmente útil para o setor de serviços e, sem dúvida, revolucionária no campo da administração pública, que, desta forma, poderia servir mais diretamente às necessidades e exigências da população.

 


No momento, essas experiências de implementação digital têm sido aplicadas com êxito no campo do artesanato. Orientadas para o mercado local, ou mesmo atuando no mercado global através da internet, novas empresas voltadas ao artesanato estão levantando voo com um desenvolvimento considerável. Elas se dedicam a produzir para uma baixa demanda e seu limite de produção parte da unidade, graças ao desenvolvimento da impressão 3D e de outros procedimentos tecnológicos que permitem que se possa individualizar o produto no seu nível máximo de personalização.

Como afirma Isabel Valdés nos Cuadernos de Diseño 4, esse procedimento “requer mais que uma revolução tecnológica, uma revolução cultural. O que muda de fato não é tanto o objeto que consumimos, e sim o modo como o consumimos (...) Se a última revolução consistia na produção em massa de milhões de produtos perfeitos e idênticos entre si, com rígidos controles de qualidade e padronização, esta última revolução consiste na produção de alguns poucos objetos, que deixam evidente sua individualidade, sua identidade e não-linearidade. Assistimos ao nascimento não da fábrica, mas do ateliê sustentado e desenvolvido pelas redes sociais (...) Esta nova forma de produzir descentraliza, por si, os meios de produção. O designer poderá seguir projetando para os consumidores de sempre, mas, no lugar de vender os direitos de seus produtos para os grandes fabricantes ou depender deles para produzir, poderá desenvolver seus próprios produtos com independência e autonomia. A democratização das ferramentas de design e fabricação oferecem uma oportunidade para reconsiderar designs existentes assim como propor novos produtos únicos capazes de se adaptar rapidamente às necessidades individuais contemporâneas. (...) O design e a fabricação hoje são produto da cultura de participação. Investigando como profissionais criativos projetam e produzem objetos, descobrimos que é na interação entre as comunidades que uma nova revolução está sendo criada”.

 Autor: Sebastián García-Garrido