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Cultura do design e ressignificação do Cassino da Urca

  • IEDentity
  • "Under Pressure: uma metamorfose"
  • Número 10 - 7 de maio de 2019
Fabio Palma
  • Fabio Palma

A sede do IED no Rio de Janeiro ocupa um edifício que faz parte da história cultural não somente da cidade, mas de todo o Brasil. No projeto e no processo de restauro e ressignificação desse patrimônio tombado, uma visão ampliada de sustentabilidade está sendo empregada, levando em conta a cultura e o território como fatores fundamentais para perpetuar “o espírito do lugar”, ao mesmo tempo em que estabelece conexões com a inovação e as oportunidades. Fabio Palma, diretor do IED Brasil, faz uma reflexão a partir desse desafio, inteiramente pensado pela ótica do design.

"Nullus locus sine Genio"
(Servius, in Virgilii opera expositio)

Tenho a sorte e o privilégio de participar de um desafio notável: a revitalização do prédio que abrigou o Cassino da Urca (1933-1946), no Rio de Janeiro, com sua reabertura, nesse cenário mítico, como a sede carioca do Istituto Europeo di Design, o IED.

Quero contar aqui brevemente esta história da reconstrução de um sentido coletivo, na qual o design é vetor de transformação. A questão principal enfrentada é que a sustentabilidade não pode mais ser entendida simplesmente como ambiental, econômica e social.

Há outros dois componentes fundamentais e interdependentes a serem considerados – o cultural e o territorial. Uma ação pode até ser sustentável do ponto de vista do tripé tradicional, mas, se não está integrada fisicamente ao território e à cultura, é incompleta.

No projeto, realizamos três grandes grupos de ações de sustentabilidade, relacionadas a nossa atividade acadêmico-educacional, ao patrimônio material e imaterial e, mais que tudo, as suas relações com o território e com as pessoas.

Começamos dentro da sala de aula. Não poderia ser diferente para uma instituição de educação. Em parceria com o Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento (ITDP), criamos um curso de mobilidade sustentável, além de uma série de cursos de moda étnica e upcycling, o que nos permitiu reciclar peças de vestuário que, por defeitos ou excesso de produção, iriam se transformar em resíduos.

Com isso, nosso objetivo foi e é tentar contribuir para transformar uma lógica econômica de produção-consumo linear (produzo-uso-descarto) em uma lógica circular, na qual o resíduo vira matéria-prima e adquire um novo valor ao ser reintroduzido na cadeia. Fizemos isso tanto em nossos cursos quanto em ações concretas.

No dia a dia, claro, promovemos a separação dos resíduos, incluindo na cafeteria. Mas quisemos ampliar essa atitude e, por isso, colocamos à disposição de todo o bairro da Urca, e seus mais de seis mil habitantes, um ponto de coleta seletiva – o único formalizado naquela área.

Instalamos um contêiner para separar, coletar e reciclar materiais básicos, como papel, papelão, plástico e vidro. É periodicamente esvaziado e seu conteúdo é conduzido para empresas e cooperativas que possam reutilizar esses recursos. Iniciamos esta ação em 2016 e desde então vem funcionando regularmente. Coletamos mensalmente algumas toneladas que deixam de virar lixo.

Considero, no entanto, que nossa maior ação de sustentabilidade é devolver a histórica edificação que representa muito para a cultura brasileira. Temos aí um exemplo de revitalização e de sustentabilidade cultural. Não somente o prédio em si é reestruturado segundo critérios de sustentabilidade, mas, em lugar de um abandono, volta a ganhar vida em uma atividade capaz de gerar emprego, renda e benefícios culturais.

A revitalização do Cassino da Urca, em um bairro vinculado à criatividade, inovação e entretenimento, significa permitir que o espírito do lugar continue a vibrar. Este é um valor imenso que se agrega àquele gerado pelos critérios de sustentabilidade ambiental.

Claro, o restauro e a gestão da sede do IED irão incorporar integralmente critérios ecológicos, ambientais e de acessibilidade – reciclagem e reuso da água da chuva, geração de energia solar, cobertura verde, minimização de resíduos durante a obra e posteriormente em seu funcionamento. Será o primeiro prédio tombado sustentável do Brasil.  

Mas, ao mesmo tempo, iremos restituir à cidade um patrimônio vivo e pulsante, o que reativa outro círculo, reestabelecendo os vínculos do prédio com o território e com as pessoas que ali vivem, trabalham e passeiam.

O genius loci é fruto dos anseios e da identidade coletiva que as pessoas imprimem nos territórios que habitam. O edifício do Cassino da Urca é uma metáfora do Rio de Janeiro como um todo: acompanhou e contribuiu para sua grandeur e sua época de ouro nos anos 1920 (período em que abrigou o Hotel Balneário Urca), 30 e 40; foi protagonista da evolução e da modernização da cidade nas décadas de 1950, 60 e 70, quando ali estava a TV Tupi.

A ressignificação do local – como metáfora do Rio de Janeiro – aspira a representar o berço da economia criativa, da qual a cidade pode ser a porta-bandeira. Sua vocação natural é ser um grande laboratório aberto para designers, artistas, estilistas, sociólogos, cientistas, engenheiros, antropólogos, artesãos digitais, filósofos e outros profissionais que queiram participar desse ponto de encontro entre empresas e instituições públicas interessadas em investir em novas ideias e novos talentos.

Portanto, a inovação, que é o núcleo matricial da cultura do design, materializa-se tanto na revitalização arquitetônica do Cassino – conservando a volumetria, as fachadas, as delicadas curvas do palco art déco dos anos 1930, agregando salas, laboratórios e espaços modernos e funcionais – como no convívio com o bairro e, para além dele, de portas escancaradas para o novo.

O conceito-base é habitar a história com sustentabilidade. Não vamos esconder as camadas que durante os vários anos representaram as características do patrimônio material – o hotel balneário, o cassino, a TV Tupi e agora o IED Rio - à parte da decadência. Estarão todas presentes em nosso projeto e poderão ser vistas durante a obra e durante a vida do prédio.

Ao pé do Morro da Urca, a valorização do genius loci daquele lendário local, parte do imaginário coletivo brasileiro, continua para transformar todo o conjunto em um centro de referência e excelência do design, da economia criativa e da sustentabilidade.

A sustentabilidade, valor transversal do design e base imprescindível de todo processo de inovação, será um traço marcante do edifício e do bairro, como um território inclusivo e colaborativo.

Agora esta história se prepara para um novo capítulo, que impulsionará a criatividade do século 21, a partir de um complexo processo de inovação, no qual a cultura do design é a catalisadora de um novo e mais completo conceito de sustentabilidade.

Autor: Fabio Palma

 

 

Fabio Palma